Google é acusado de racismo após demitir especialista em inteligência artificial

Nos últimos dias, o Google tem sido alvo de protestos nas redes sociais após uma de suas líderes de Ética em Inteligência Artificial, Timnit Gebru, ser demitida na quinta-feira (3). Segundo ela, o motivo teria sido um e-mail que desagradou seus superiores. Além das críticas à atitude da gigante das buscas, a cientista recebeu apoio por meio da hashtag #ISupportTimnit, no Twiter, e um abaixo-assinado contra a ação.

O e-mail teria sido enviado a uma lista de transmissão chamada Google Brain Women and Allies, formada por mulheres que trabalham na área de pesquisa em inteligência artificial e deep learning. Nele, Timnit demonstra insatisfação por estar sendo obrigada a desistir de publicar um paper de coautoria com outros funcionários da empresa e colaboradores externos.

“Uma semana antes de sair de férias, você vê uma reunião aparecer em sua agenda às 16h30. E nesta reunião, o gestor do seu gestor te informa que ‘foi decidido’ que você precisa retirar seu paper até a próxima semana… Você não vale nem uma conversa sobre o assunto, já que não é alguém cuja humanidade (para não falar da experiência reconhecida por jornalistas, governos, cientistas, organizações civis como a Electronic Frontiers Foundation) é valorizada nesta companhia”, diz o e-mail.

Em um tuíte, Gebru diz ter recebido a mensagem pela vice-presidente de Engenharia do Google Research, Megan Kacholia, informando aceitar seu pedido de demissão. “Eu não me demiti, só propus algumas condições e disse que responderia quando voltasse das férias. Mas acho que ela decidiu por mim”, publicou a cientista. Em outros posts no Twitter, ela explica que Kacholia alegou que suas condições não poderiam ser atendidas, e que a empresa aceitava seu pedido de demissão.

“No entanto, acreditamos que o encerramento de suas atividades deveria acontecer antes do proposto em seu e-mail, pois certos aspectos do e-mail que você enviou na noite passada para funcionários que não são gestores no grupo Brain mostram um comportamento que não condiz com o esperado de um gestor Google”, teria dito a vice-presidente, de acordo com os tuítes de Gebru.

Ela atribui a decisão sobre sua demissão a Jeff Dean, chefe do departamento de IA. Na quinta (3), Dean enviou um e-mail aos funcionários da empresa, obtido pelo site Platformer. Nele, o gestor explica que o paper publicado por Gebru e colaboradores externos precisaria passar por um processo de revisão que dura duas semanas, mas foi publicado antes disso. “O paper foi revisado e os autores foram informados que ele não atendia nossos requisitos para publicação e os motivos”, afirmou Dean no e-mail.

#ISupportTimnit

A decisão do Google de demitir a especialista em IA não foi bem aceita pela comunidade científica. Mais de três mil pessoas já assinaram um documento encabeçado pelo Google Walkout, grupo de funcionários e ex-funcionários que realiza manifestações contra assédio sexual e falta de transparência na empresa, pedindo explicações sobre o desligamento de Gebru. O documento alega que a cientista foi alvo de racismo, gaslighting, censura e uma demissão retaliatória.

“Pelo que sabemos, a doutora Gebru é uma das únicas pessoas que exercem pressão interna contra uma incursão antiética e antidemocrática de tecnologias poderosas e enviesadas em nossas vidas. Isto é um serviço público, e sua importância não pode ser subestimada. A retaliação do Google contra a doutora Gebru, e sua manobra para silenciar seu trabalho, nos preocupa”, diz o documento do Google Walkout.

Em parceria com Joy Buolamwini, cientista da computação e ativista do MIT Media Lab, Gebru publicou um paper sobre o viés algorítmico, mostrando as taxas de erro ao identificar pessoas de pele escura eram muito maiores sobre pessoas de pele clara. Um dos motivos era a utilização majoritária de datasets brancos no treinamento de algoritmos.

Fonte: The Verge/Platformer

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